sexta-feira, 4 de maio de 2007

outono no planalto


"...eu sinto a noite se inclinar e ouço as cantigas antigas do mar. Eu me perco em carícias de água e durmo escutando em vão o silêncio"

(Vinícius de Moraes)

No planalto central, nessa época do ano, com o término das chuvas e a entrada do outono, os dias são mais azuis e o pôr-do-sol deslumbrante. Dia desses, voltando pra casa depois do trabalho, fiquei completamente fascinada pelas cores que o ocaso formava no céu. O horizonte alaranjado, quase vermelho, parecia estar em chama. Um espetáculo de se ver. Quis acreditar que foi dádiva divina, especialmente pra mim, pra compensar a secura e a aridez dos meus tempos no cerrado.
Tá bom. Ninguém disse que iria ser fácil. E como é difícil encarar a ausência every single day! Ela, que me acompanha há tempos, já virou amiga inseparável. Muitas vezes, já tão acostumada com esse estado das coisas, chego a sentir-me estranha na companhia de outras pessoas que não a fiel ausência. Porque quando somos apenas eu e ela, os pensamentos voam longe, os devaneios preenchem o vazio e é assim, na introspecção, que os verdadeiros sentimentos vêm à tona.

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim"

(Carlos Drummond de Andrade)

No entanto, esse vazio constante, a dor da distância, a saudade permanente se impõem de tal maneira que acabam por se tornar cruéis. E tudo piora aos domingos, quando, mais do que nunca, olho através da janela e não vejo nada. Nem o céu de outono, nem o pôr-do-sol são capazes de preencher a "ausência assimilada". Resta-me, agora, esperar pelo solstício e me mandar pra Campos, onde os dias são mais leves e eu muito mais feliz!

Nenhum comentário: