terça-feira, 6 de maio de 2008

Há Sempre Uma Perda Em Cada Encontro

Cada encontro está carregado de perda. Ou de perdas. À vezes duas pessoas que se amam (casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade, um deles chora. Ou fica triste. Ou baixa os olhos. Ou é invadido por uma inexplicável melancolia. É a perda que está escondia no deslumbramento de cada encontro.

O encontro humano é tão raro, que quando surge, vem carregado de todas as experiências de desencontros que a pessoa já teve. E que a espécie já sofreu.

(...) Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade. É a experiência de tantos desencontros o que marca os raros encontros que a vida permite. A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande Encontro (com o Todo? o Nada?). Por isso talvez seja uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência do Ser.

Mas por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda. A perda é mais adivinhada do que sentida. E no ato de sentir-se feliz, intensamente feliz, associa-se a idéia do passageiro que é tudo, do amanhã cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa.

E uma tristeza muito particular se instala: a tristeza feliz. A tristeza feliz não é a que deriva das grandes dores, frustrações ou amarguras. É a que se associa ao momento bom, como perda inerente a cada encontro, como sentimento de certeza de que tudo aquilo passará. É a consciência de não ter na hora de ter.

Tristeza feliz é a que surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros. Encontros verdadeiros são os que se dão de "self" (si mesmo) para "self" e não de inteligência para inteligência, de concordância para concordância, de interesse para interesse.

Os encontros verdadeiros prescindem de palavras. Prescindem, até, do clássico "precisamos conversar". Eles realizam em cada pessoa a parte delas que se sublimou, ficou pura, melhor, louca, mas a parte que responde a carências muito antigas e a certezas anteriores aos fatos.

É mais fácil, para quem tem um encontro verdadeiro, acabar triste pela certeza fluidez da felicidade vivida, do que sair cantando a alegria da felicidade vivida ou trocada. Quem se alegra demais se distancia da felicidade. Felicidade está mais próxima da paz que da alegria; do silêncio que da festa; do encontro que do debate.

(...) FELICIDADE está perto da tristeza, porque a certeza da perda sempre se instala a cada vez que estamos felizes.

Cada encontro está carregado de perda. (...) É esta certeza-da-perda o que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que a gente não sabe porque às vezes se instala após os verdadeiros encontros.

Há sempre uma despedia em cada alegria. Há sempre um "e depois" após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada.

Artur da Távola

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